Heitor e Aquiles: Os Dois Caminhos para a Masculinidade

Para os antigos gregos, a Ilíada de Homero era muito mais do que um poema épico sobre a Guerra de Troia; era uma espécie de manual sobre a andreia — a palavra grega para masculinidade e, especificamente, para a coragem viril.

Conta a história que Alexandre, o Grande, mantinha uma edição especial da obra (preparada pelo seu tutor, Aristóteles) debaixo da almofada durante as suas campanhas militares. Para Alexandre, o guerreiro Aquiles era a personificação perfeita da andreia. O jovem rei moldou a sua vida em torno desse ideal, visitando o túmulo do herói e chorando a morte do seu melhor amigo, Hefestião, da mesma forma que Aquiles chorou por Patroclo.

Até hoje, a figura de Aquiles — forte, veloz e implacável — fascina e serve de inspiração. Ele encarna aquilo que muitos homens desejam no seu íntimo: uma coragem inabalável e uma destreza física formidável.

No entanto, embora Aquiles leve quase toda a atenção e a adulação, existe outra personagem na Ilíada que exemplifica a masculinidade de uma forma muito mais prática e realista para nós, meros mortais: o príncipe troiano Heitor.

Eles representam dois caminhos distintos para a masculinidade: o Ser e o Aprender.

Aquiles: O “Ser” Masculino

No campo de batalha, ninguém conseguia parar Aquiles. Ele não temia homens nem deuses. O seu thumos (a energia vital, o ímpeto focado e ardente) queimava de forma tão intensa que o transformava numa força da natureza. Para além disso, Homero descreve-o como incrivelmente belo (não é por acaso que Brad Pitt o interpretou no cinema).

Aquiles tinha defeitos graves: uma fúria incontrolável, um orgulho desmedido e, claro, o famoso calcanhar vulnerável. Mas esses defeitos eram o preço a pagar pela sua glória imortal.

O grande problema em usar Aquiles como o nosso modelo de masculinidade é simples: Aquiles não era um homem comum.

A sua mãe era Tétis, uma deusa olímpica imortal. Aquiles era um semideus. Ele não precisava de se esforçar para ser corajoso, forte ou atlético; isso já estava inscrito no seu DNA divino. Aquiles já nasceu pronto. Para ele, a andreia era um estado natural de ser.

Por isso, embora o seu mito seja inspirador, o seu caminho é pouco útil para o homem comum que não tem uma divindade na árvore genealógica.

Heitor: O “Aprender” a Masculinidade

Do outro lado das muralhas estava Heitor. Durante nove anos, ele liderou a defesa de Troia contra o massacre grego. Era um guerreiro calejado pela batalha e, tal como Aquiles, tinha uma reputação impecável de andreia.

Mas a diferença crucial é que Heitor era 100% mortal. Ele não nasceu com a masculinidade garantida; ele teve de a aprender.

Numa das cenas mais tocantes da literatura ocidental, Heitor regressa exausto e ensanguentado ao interior das muralhas de Troia. A sua esposa, Andrómaca, implora-lhe em lágrimas que não volte para o combate, temendo ficar viúva.

Em vez de responder com uma arrogância típica de Aquiles, Heitor demonstra uma profunda humildade humana. Ele confessa à esposa que partilha do mesmo medo:

“Tudo isso me preocupa, querida mulher. Mas eu morreria de vergonha diante dos homens e mulheres de Troia se me esquivasse da batalha agora, como um cobarde. Nem o meu espírito me impulsiona nessa direção. Eu aprendi isto tudo muito bem. A manter-me firme bravamente, a lutar sempre nas primeiras fileiras dos soldados troianos, conquistando grande glória para o meu pai e para mim mesmo.”

A palavra grega que Homero utiliza para “aprender” neste trecho é didaskein. O mais fascinante é que esta palavra nunca é usada em mais nenhum momento da Ilíada para descrever a bravura ou a masculinidade. Homero fez isto de propósito para contrastar o instinto divino de Aquiles com o esforço humano de Heitor.

Heitor não sentia uma ausência de medo. A sua coragem era a habilidade praticada de sentir o medo e, mesmo assim, decidir dar o passo em frente.

Por natureza, Heitor parecia ser um homem genuinamente bom, gentil e compassivo. Há passagens que mostram que, enquanto todos em Troia culpavam Helena pela guerra, Heitor era o único que a tratava com gentileza. Logo após a conversa com a esposa, o seu filho bebé assusta-se com o capacete ensanguentado e começa a chorar. Heitor ri-se, tira o capacete, pega no menino ao colo, atira-o ao ar e enche-o de beijos — exatamente como qualquer pai carinhoso faz hoje em dia.

Heitor era um homem de família, um bom homem. Mas ele compreendia que a bondade, para ser eficaz, precisa de ser apoiada pela força. Ele sabia que cultivar as virtudes civilizadas (ser carinhoso, justo e gentil) de nada serviria se não aprendesse também as “virtudes bárbaras” (a força, o foco e a coragem) para proteger aqueles que amava.

O Caminho do Aprendiz

A maioria dos homens modernos partilha mais semelhanças com Heitor do que com Aquiles. Não nascemos com a coragem blindada ou com todas as competências masculinas integradas por instinto. Se nos deixássemos levar apenas pelas nossas inclinações naturais de conforto, muitos de nós prefeririam passar os dias no sofá a comer petiscos e a jogar videojogos.

Tornar-se um homem completo — aquilo que os gregos chamavam de atingir a arete (excelência) e a eudaimonia (plenitude) — exige um esforço consciente. Exige uma educação autodidata na arte da masculinidade.

É muito comum ver homens que se sentem inseguros por terem de “aprender” a ser homens, como se o facto de precisarem de ler, praticar ou ir ao ginásio para desenvolver a força e a resiliência fosse um sinal de fraqueza. Os “Aquiles” do mundo real (aqueles que nasceram naturalmente agressivos, destemidos e atléticos) às vezes olham com desdém para esse esforço.

Mas essa insegurança não faz sentido. Grandes figuras da história como Theodore Roosevelt, Winston Churchill ou Frederick Douglass foram, na verdade, “Heitores”. Eram homens que começaram a vida com fragilidades físicas ou timidez, e que tomaram a decisão consciente de treinar o corpo e a mente para se tornarem fortes.

Existem dois caminhos para a masculinidade: o caminho do ser (reservado a poucos semideuses biológicos) e o caminho do aprender. Para a vasta maioria de nós, o caminho de Heitor é o único real. É o caminho do homem bom que escolhe aprender a ser forte, garantindo que a sua bondade nunca seja confundida com fraqueza.

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